13 razões para viver

Mayra Jordão 0 Comentários 7 de maio de 2017

IMG_66248123454361Por Élison Santos.

Em sua obra que se tornou um dos dez livros mais influentes da história dos EUA, ‘Em busca de sentido – Um psicólogo no campo de concentração’, Viktor Frankl relata situações ocorridas durante seus três anos como prisioneiro durante a Segunda Guerra Mundial. A tônica de toda sua obra, iniciada antes da guerra e largamente desenvolvida durante mais de cinco décadas depois da guerra, é a afirmação categórica de que a vida tem sentido, não importa sob qual circunstância, a vida sempre tem sentido. Mas, como encontrar o sentido da vida, especialmente quando tudo parece estar errado, quando parece não haver saída para os problemas, quando a angústia parece ser maior que a vontade de viver?

Enquanto a série ’13 reasons why’ da netflix nos propõe uma reflexão sobre os motivos que podem levar alguém a tirar sua própria vida, proponho aqui algumas razões para se enfrentar a ideia de morte:

1 – Por alguém – Em algumas situações no campo de concentração Frankl se deparou com pessoas que queriam cometer suicídio, algumas ele pôde ajudar, propondo-lhes esta reflexão, se haveria alguém por quem valeria a pena suportar o sofrimento do campo de concentração até o fim e manter a esperança de talvez um dia reencontrar esta ou aquela pessoa. Esta reflexão fez com que muitas pessoas deixassem a vontade de morrer e passagem a suportar o sofrimento de estar vivo sob aquelas circunstâncias, por alguém.

2 – Uma tarefa – Outras pessoas no campo de concentração haviam prometido para elas mesmas terminar uma tarefa, um livro que haviam iniciado antes da guerra, uma obra que haviam prometido para si mesmas que realizariam durante a vida e por esta ou aquela tarefa, por este ou aquele compromisso consigo mesmo, valeria a pena suportar o sofrimento e deixar aberta a possibilidade de sobreviver em um pós-guerra.

3 – O amor – Além de pensar no bem de outra pessoa, quando se tem alguém para amar, você mesmo vive uma experiência de grandes proporções. Frankl relata que muitas vezes, no final de um dia, ainda trabalhando sob o frio cortante, a fraqueza física, a fome e a humilhação, pensava em sua esposa, nos momentos felizes que passou ao seu lado e isto lhe ajudava a suportar o sofrimento.

4 – A inteligência – Enquanto estamos vivos somos constantemente desafiados por nossa existência. Nossa mente está a nos ajudar a encontrar saídas para os problemas e por isso temos condições de suportar sofrimentos. É fato que sempre existem saídas. Por isso a afirmação categórica de que a vida tem sentido. Portanto, se não estamos encontrando saída é porque nossa inteligência está, de alguma forma, equivocada, alguma emoção muito grande pode nos impedir de encontrar e perceber as muitas possibilidades de saída daquele problema.

5 – O humor – Frankl relata que uma vez foram encaminhados para um barracão e tiveram que tirar suas roupas, era um lugar diferente, eles sabiam que muitos prisioneiros eram encaminhados para lugares assim e eram executados com gases letais. Eles entraram ali e se depararam com muitos chuveiros, estavam literalmente morrendo de medo de que daqueles canos saíssem os gases que os matariam, quando de repente saiu água e muitos deles começaram a rir muito porque ao invés de serem mortos, foram levados apenas para tomar banho. Mesmo diante das piores situações de nossa vida, mesmo diante do sofrimento mais amargo que alguém pode viver, ainda assim é possível encontrar um segundo de bom humor e o humor abre janelas em nossa mente, ampliando nosso campo de visão, ajudando nossa inteligência a encontrar as saídas para os problemas.

5 – A arte – Uma das formas de auxiliar a mente a suportar o sofrimento é ver a realidade por um outro prisma. Na arte a pessoa é convidada a se colocar a margem da realidade fria para poder ver com outros olhos. Frankl nos fala de uma capacidade especificamente humana que é a autotranscedência, podemos nos afastar da realidade nua e crua e encontrar um sentido superior. Um desenho, uma pintura, uma música, um poema, algo que posso expressar fisicamente ou que posso apenas imaginar em minha mente. Uma realidade que me ajude a suportar o sofrimento como, por exemplo, a personagem Guido no filme ‘A vida e bela’ desenvolve uma história para que o filho possa suportar os terrores da guerra.

6 – A resiliência – Suportar o sofrimento e a dor é uma capacidade presente em todos os seres humanos. Desde nosso nascimento experimentamos dores e desconfortos que fazem parte dos processos do crescimento físico e do desenvolvimento psicossocial. Quanto maior nossa capacidade de suportar desconfortos, maior nossa possibilidade de desenvolvimento. Frankl poderia ter ele mesmo cometido suicídio no campo de concentração, mas optou pela resiliência e fez que esta experiência terrível de dor, humilhação e privação se transformasse em uma obra com mais de trinta livros publicados e dezenas de títulos honoris causa das mais conceituadas universidades do mundo.

7 – Caridade – Uma colocação do Rabino Hillel pode nos ajudar a refletir sobre esta razão: “Se eu não for por mim, quem o será? Mas, se eu for só por mim, que serei eu? Senão agora, quando?” Refletir sobre o sentido da vida é pensar também nas pessoas que estão ao meu redor. Diante da pergunta: ‘que serei eu?’, propõe-se uma constatação de que eu sou alguém conectado com uma família, com laços de sangue e de amizade, e ainda que eu não tenha amigos nem parentes, em última instância o único responsável por mim mesmo. Desta forma, posso apelar a minha consciência para que eu mesmo seja caridoso comigo, oferecendo-me a possibilidade de seguir vivendo. E, ainda que não tenhamos certeza do futuro, temos certeza do agora, ‘se não agora, quando?’, pois se não tomo a decisão de viver agora e me salvo da morte, quando poderei fazê-lo?

8 – A curiosidade – Ainda que possa parecer sedutora a ideia de se conhecer o que há do outro lado da morte, não existe provas sobre o que se pode existir, nem mesmo se existe algo, por outro lado, há uma certeza sobre a vida, pois está sendo experimentada de alguma forma, ainda que em sofrimento. Pela experiência, também sabe-se que o tempo passa, e com o tempo surgem novas possibilidades. Posso lançar-me no desafio de que existem milhões de possibilidades que me visitarão no dia de amanhã, por que não esperar para ver o que acontece? O preço para ver o dia seguinte é apenas a paciência para viver o dia de hoje. Em uma perspectiva de muitos anos que poderão vir após o amanhã, o valor de um dia pode ser bem pouco.

9 – A vaidade – Pode-se ver a vaidade como algo negativo, mas ela está relacionada também a uma possibilidade de defesa de nossa vida. E se ela pode interpelar minha consciência para que eu não tire minha própria vida, então a vaidade pode ser minha amiga. Posso, por exemplo, perguntar-me o que os outros pensarão de mim se eu cometer suicídio, certamente que poderei encontrar muitos que terão uma visão muito negativa de mim. É certo que, para a pessoa que chega próxima de pensar na possibilidade de morrer a vaidade pode não ser algo para o qual ela vá se importar, mas não deixa de ser também para alguns uma boa questão. Minha história poderá ficar manchada negativamente, então pode valer a pena continuar vivendo para tentar construir uma história que de fato traga orgulho para as pessoas que me conhecem.

10 – A fé – Nem todo mundo tem uma religião, mas todo ser humano tem a capacidade de ter fé. Ainda o mais ateu dos ateus, pode se deparar com sua capacidade de crer nas infinitas possibilidades do universo. Ainda que para alguns não haja provas suficientes de que Deus exista, para todos não existem provas cabíveis de que Ele não exista. Desta forma, todos temos a possibilidade de ter fé. Frankl não sabia que a guerra acabaria, ninguém sabia, ele não sabia se sairia vivo da guerra, mas de alguma forma, ele acreditava. São muitos os relatos da Segunda Guerra de grupos que se reuniam para rezar, para realizar suas experiências religiosas em comunidade. Existem pesquisas no campo da psicologia e da psiquiatria que comprovam, por exemplo, que as pessoas que têm uma crença religiosa tendem a superar com mais facilidade uma enfermidade ou um vício do que aquelas que não tem.

11 – Meu espelho – A pessoa pode chegar em um ponto da vida que não mais goste de si, que eu não goste do seu corpo, do seu semblante, das pessoas que a cercam, da sua casa, das coisas que tem, mas se tem algo que não pode fugir é de sua própria consciência. Olhar no espelho, não significa buscar uma análise narcísica das coisas bonitas que julgue que todos devam ter, mas sim olhar nos seus próprios olhos, encarar a verdade do seu olhar. Quando olhar para si, busque dizer com honestidade o que você pretende fazer com os sonhos, os planos, as experiências, as histórias que viveu. Olhar no espelho é permitir-se apreciar tudo o que se construiu até agora e valorizar esta obra chamada vida.

12 – Meu futuro – Não tenho certeza do meu futuro, mas posso projetar-me. A 12ª razão para viver encontra-se em um diálogo sincero com uma pessoa chamada ‘meu futuro’, ela tem o meu nome, e é pelo menos 10 anos mais velha que eu. No meu caso, que estou com 39, quero falar com o meu ‘eu’ de 80 anos. Depois de olhar no espelho e ver meus olhos de agora, quero olhar para os olhos do senhor de 80 anos. Ele olhará para mim e me dirá o que eu fiz de certo e o que eu fiz de errado. Eu estou dando a ele a oportunidade de me dizer o que há de errado no momento atual, ele passou por isso, ele viveu aquele momento e depois de algum tempo ele entendeu bem os motivos do sofrimento que eu estou vivendo. Eu olho para os olhos deste senhor de 80 anos e não consigo pensar em outra coisa do que na vontade de encontrá-lo são e salvo daqui 41 anos, eu amo este senhor e quero poder abraçá-lo um dia. Farei de tudo para que eu o encontre bem.

13 – Minha missão – Não há ninguém igual a mim, desde minhas aulas de biologia no ensino fundamental eu sei que dos mais de 7 bilhões de habitantes da terra, ninguém tem uma digital como a minha, ninguém tem um DNA como o meu. Por alguma razão eu nasci neste tempo da história e neste espaço do universo, minha existência tem um sentido. Assim como inúmeros seres vivos existem por uma razão, por um propósito, eu certamente tenho o meu, a lógica, a história e a ciência me provam isso. Minha vida tem um sentido e ele é único. Eu cheguei a este momento talvez porque muitas circunstâncias me levaram a pensar que minha vida não era importante, que minha história não fazia diferença, mas desde o dia em que eu fui concebido eu comecei a mudar o mundo ao meu redor, a vida da minha mãe mudou, do meu pai, da minha família, das pessoas que me conheceram quando eu era apenas um bebê e dos colegas e amigos que fiz durante todos estes anos, ainda que não gostem de mim, eu represento algo para eles, minha vida fez diferença até agora, mesmo eu não sabendo o que queria, mesmo eu não entendendo o valor da minha vida, mesmo nas vezes em que eu estava pensando apenas em mim mesmo, de alguma forma, direta ou indiretamente, minha vida está afetando a vida de outras pessoas. Hoje, lendo este texto sobre 13 razões para viver, eu me pergunto: Qual é minha missão? O que está ao meu alcance? O que poderei fazer nos anos que virão para que minha vida possa influenciar de forma positiva nas pessoas ao meu redor? Viktor Frankl relata um momento em que ele seria levado em um caminhão para ser possivelmente liberto, pois a guerra estava acabando, mas ele viu que haviam muitos doentes ali e como era médico sentiu-se no dever de ajudar as pessoas que estavam ali e abriu mão de ir naqueles caminhões. Terminada a guerra, ele viria a saber que as pessoas que estavam naqueles caminhões foram executadas. Ele refletiu de como seu senso de missão, o tinha livrado novamente da morte. Todos nós temos um lugar no mundo, um lugar que só pode ser preenchido por nós, com nossa unicidade. Uma obra de arte é valiosa justamente por ser única, somos uma obra de arte, a mais bela e cara de todas, e o valor de nossa existência pode ser aumentado a cada momento que decidimos fazer o que é melhor para as pessoas ao nosso redor e consequentemente para nós mesmos.

Eu sei, se você prestou atenção, percebeu que existem mais de 13 razões neste texto... não se preocupe, eu escreveria 1013 razões para mantê-lo vivo e não me importaria em ‘errar’ na sequência dos números. Ao final das contas, não importa quantas razões você tenha para tirar sua vida, lembre-se que você só precisa de uma razão para manter-se vivo.

Élison Santos é Psicólogo Clínico, terapeuta de casal, membro da sociedade brasileira de logoterapia, especialista em Análise Existencial e Logoterapia pela PUC Curitiba. É idealizador do grupo de reflexão para mulheres "Compreendendo os homens". Palestrante, comentarista de TV e colunista do site aleteia.org.

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