12240050_552835868199622_4125336296089670852_nPor Mayke Moraes.

Durante mais de 15 dias, explorei esse país de cultura e pessoas tão exóticas e mesmo assim Myanmar não cansou de me surpreender. Depois de ter visitado as cidades de Yangon e Bagan, dirigi-me ao nordeste da terra dourada, em uma cidadezinha chamada Inle Lake, famosa pelo lago Inle e seus pescadores que além de remarem seus barcos de uma maneira única, utilizando os pés, construíram suas vidas as margens do mesmo. Casas, mercados, lojas, turismo, praticamente tudo nessa cidade depende das águas desse lago.

Explorei boa parte da cidade nos primeiros dias, então decidi alugar uma bicicleta (R$ 3,00 a diária) para me aventurar em outras áreas mais distantes, fora dos roteiros turísticos e longe de outros turistas. Foi quando depois de 3 horas e meia pedalando por entre estradas de terra, plantações de arroz, asfalto, morros e ladeiras, avistei um mosteiro, no alto de uma montanha imponente à beira da estrada com seus 250 degraus que, pra mim olhando lá de baixo depois de ter pedalado tanto, mais parecia uma escada para encontrar Deus, o céu. (Stairway to heaven).

Cogitei não subir, pois estava absurdamente cansado e também um pouco preocupado em ter que deixar a bicicleta naquele lugar remoto, desprotegida. Carregá-la no ombro degrau por degrau até o monastério, jamais, e foi então que, como num passe de mágica um pequeno ser careca apareceu, vestido de vermelho, no alto da montanha, no último degrau, acenando curiosamente e me chamando com gestos um tanto quanto desesperados.

Subi com tamanha empolgação que na metade do caminho me dei conta de que havia deixado a bicicleta deitada na beira da estrada. Continuei mesmo assim e a imagem daquele pequeno ser vestido de vermelho foi ficando mais clara, nítida à medida que me aproximava do último degrau.

Uma criança, um mini monge. Fiquei contente ao ver o quanto ele estava feliz em me receber, mas logo percebi que aquela felicidade toda tinha um outro motivo. Ele, na verdade precisava da minha ajuda pra pegar uma bola que estava presa no topo de uma árvore. Se é difícil dizer não pra uma criança, imagine pra uma criança monge. Subi na árvore, peguei a bola e em seguida fui convidado pelo mini Dalai-Lama para, acreditem ou não, uma partida de futebol.

Ele me levou até a outra parte do monastério, lugar esse que aparentemente deveria ser usado para orações e meditações. Uma estátua enorme dourada de Buda em um amplo pátio, rodeado por casas de madeira muito simples e que provavelmente servem de hospedagem para os monges. Logo que a bola foi jogada no centro do pátio, outros 12 a 15 mini monges apareceram e curiosos quiseram  logo saber quem eu era, me enchendo de perguntas naquele inglês bem básico, mas que me deixou extremamente orgulhoso. Eles se esforçavam pra conversar e praticar inglês comigo, me lembrando o episódio ocorrido na cidade de Yangon algumas semanas atrás, onde em uma sala de aula dei uma palestra sobre minha vida pra mais de 120 moradores locais em uma escola de inglês.

Os mini monges ficaram extremamente empolgados quando souberam que eu era brasileiro e logo começaram os preparativos pra mais uma partida de futebol. Formaram dois times e ficaram por alguns minutos argumentando pra decidir em qual dos times eu jogaria. Os dois times me queriam muito.

Infelizmente esse é um dos grandes problemas que tenho que enfrentar quando na estrada digo que sou brasileiro. Todas as pessoas quando descobrem minha nacionalidade, acham que sou um craque no futebol e que danço samba como um legítimo “mestre-sala”. Quando digo que sou horrivelmente péssimo fazendo os dois, eles se surpreendem. Tenho certeza que se os mini monges soubessem o tanto que sou ruim no futebol eles jamais perderiam tempo discutindo em qual time eu jogaria. Acho que a estátua do Buda faria uma partida melhor que eu.
Quem me conhece sabe que sempre gostei de futebol, mas que nunca fui um exímio jogador, mesmo tendo passado boa parte da minha infância dentro de quadras e alguns campos de futebol, o que definitivamente não ajudou em nada a lapidar o meu possível talento escondido. Posso me considerar um “PEREBA” esforçado, aquele que quando está em jogo faz o possível pra passar menos vergonha perante os outros jogadores.

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Enfim, jogamos por aproximadamente 2 horas e confesso que durante a partida fiquei várias vezes perdido, sem saber quem era do meu time e quem não era, pois todos os mini monges pareciam os mesmos. No final, outros moradores do monastério se juntaram a nós, homens vestindo saias (vestimenta muito comum em Myanmar) o que deixou a partida ainda mais engraçada e exótica.

PLACAR FINAL? Experiência única, momento memorável, várias bolhas de sangue nas solas dos meus pés e aquele sentimento de mais uma missão cumprida. Feliz demais!
Ah sim… a bicicleta? Continuava lá, do mesmo jeitinho que deixei.

As fotos inseridas no texto são do autor do texto e foram tiradas em um mosteiro na cidade de Inle Lake, em MYANMAR. – 05/2014.

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Mayke Moraes é brasileiro, mineiro, solteiro, flamenguista e apaixonado por viagens, desde que se entende por gente. Fissurado em comidas bizarras, exóticas e nojentas para alguns. Sem apegos materiais e emocionais, carrega consigo, além da mochila um único sonho, o de visitar e explorar 100 nações. Mora fora do Brasil desde 2008, tem uma vida nômade, onde graças a muito suor e diferentes trabalhos continua realizando seu grande sonho de explorar o globo, já tendo visitado e explorado 54 países e centenas de cidades, sempre com pouco dinheiro e muita vontade, inspirando e motivando aqueles que erroneamente acreditam que é preciso ser rico para viajar o mundo.

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