Por Marcilio Godoi.

Dentro de Lori mora um corcel negro, que vagará perdido quando ela morrer, disse Clarice. Dentro de Clarice habita uma poeta, atormentada, insone e estranha, como soem ser as melhores poetas, as sem poema. Dentro do poeta Cacaso mora um anjo vaidoso, sambista, seu prisioneiro. Dentro do coração de Milton Nascimento vai aquele famoso menino-moleque jogando bola de meia, bola de gude. Dentro dos memorialistas costuma habitar um velho contador de histórias.

Desconfio aqui uns dentros clássicos: que dentro de Guimarães Rosa haja uma onça; que dentro de Machado de Assis haja um bruxo; que dentro de Manoel de Barros haja um córrego num quintal; que dentro de Manuel Bandeira haja um quarto antigo, que dentro de Dante haja um outro dentro.

Imagino que dentro de Chico Buarque haja uma mulher, que dentro de Adélia Prado haja um peixe, que dentro de Shakespeare haja um Deus multifacetado, que dentro de Cervantes haja um louco. Não tenho leitura para saber supor no rumo do que vai dentro de Homero ou de Joyce, mas suponho figuras mitológicas imensas, como Netuno e Cronos, respectivamente.

Todo mundo tem um dentro. Um inconfessável monstro, uma baleia ou só um escorpião sorrateiro, no escuro. Não é óbvio que dentro de Tom Jobim havia uma mata? Que dentro de Villa Lobos havia um índio, que dentro do Quintana havia um passarinho? Claro que sim. E nos encanta descobrir de súbito, muito depo9is de conhece-lo , que dentro de Bartolomeu Campos de Queiroz havia um fruto inflamado, um tomate, com tantos, potentes e vermelhos atributos.

Os dentros não desenham, não se definem por fora, mas eles escapam na voz, na obra, num gesto, num verso. Deixam-se entrever na deixa dos objetos que reunimos na caminhada. Tenho amigos cujos dentros são muito evidentes, lâmpadas, golfinhos, engrenagens, luas, sereias, paisagens inatingíveis, pedras brutas, preciosas.

Está na cara que dentro de fulano tem um leão marinho ou uma bicicleta, não sei. Mas saberemos exatamente se o olharmos bem. E que dentro de beltrano tem inacreditavelmente uma fogueira ainda acesa, brilhando em seus olhos. E que dentro do sicrano tem um texugo. Nem me pergunte porque, mas pode ir lá olhar, pela fechadura que todos temos, você vai enxergar direitinho esse texugo.

Gosto de parar e, sem julgamento algum, ficar brincando de achar dentros nos pedestres. Já vi uma jabuticabeira num senhor muito bem vestido; vi um fogão de lenha dentro de uma moça, inexplicavelmente. Vi uma mala de viagem com guarda-chuvas dentro de uma velhinha, certa vez.

Dentro das crianças é fácil, sempre vão pais imensos, trocados logo por pterodáctilos, baús de piratas, princesas e super-heróis de variada gama. Até que se lhes encaixem inevitavelmente seus verdadeiros dentros na substituição gradual da vida. Se bem que conheci uma mulher não muito idosa, em cujo dentro ainda estavam os cinco saquinhos encardidos das suas cinco marias.

Dentro de mim, bem, dentro do possível e das expectativas, dentro de mim é fácil. Dentro de mim só tem um cachorro mesmo. Ofegante. Louco pra passear.

Texto enviado por Marilene Villefort Jordão.